O fluxo maciço de migrantes para Ceuta nos últimos dias trouxe a proteção dos direitos das crianças para o centro do debate público. De acordo com a Plataforma da Criança, Cerca de 7.000 crianças e adolescentes chegaram ao território espanhol. No contexto de uma crise humanitária que resultou inclusive em perda de vidas durante tentativas de travessia, a organização instou as autoridades a priorizarem o melhor interesse da criança em todas as ações, lembrando que a Convenção sobre os Direitos da Criança exige a proteção de todas as crianças, independentemente de sua origem ou situação migratória.
A situação sobrecarregou os recursos de acolhimento da cidade autônoma. Antes dessa onda, Ceuta cuidava de 180 menores estrangeiros desacompanhados; agora, o número disparou para 800, e algumas estimativas sugerem que O número de crianças e adolescentes sem modelos familiares a seguir pode chegar a 5.000.O Ministério da Juventude e da Infância confirmou que, desde 29 de agosto, a cidade se encontra em situação de contingência migratória extraordinária, o que aciona o mecanismo de distribuição solidária entre as comunidades autônomas.
Uma crise humanitária que exige proteção imediata.
Organizações voltadas para crianças, como a Plataforma das Crianças e a Fundação Raíces, concordaram que a resposta deve priorizar a atenção imediata. O acesso a alimentação, abrigo, cuidados de saúde e apoio psicossocial são necessidades básicas. Essas necessidades devem ser atendidas desde o início, juntamente com assistência linguística e representação legal quando necessário. A Fundação Raíces enfatizou que, entre os que chegam, encontram-se indivíduos particularmente vulneráveis, como bebês, crianças pequenas e mães com filhos pequenos, muitos dos quais percorreram rotas migratórias marcadas pela violência.
A organização também alertou para o aumento de discursos que criminalizam crianças migrantes. Por trás de cada chegada, há crianças e adolescentes fugindo de situações extremas. e que atravessam fronteiras perigosas, neste caso nadando, na esperança de melhorar suas vidas. Proteger essas crianças não é apenas uma obrigação legal, mas também ética, e deve nortear as ações de todas as autoridades públicas.
Garantias legais e jurisprudência do Supremo Tribunal
Um dos pontos-chave reiterados pelas organizações é a ilegalidade dos retornos coletivos de menores. O Supremo Tribunal já se pronunciou sobre o assunto em 2024, condenando as repatriações realizadas durante a crise de 2021 e estabelecendo que Os procedimentos de rejeição e devolução na fronteira não estão legalmente previstos para crianças e adolescentes.A decisão de 30 de julho de 2026 reafirmou que um menor desacompanhado não pode ser submetido a exames médicos para determinação de idade se possuir um passaporte válido, a menos que haja razões justificáveis para duvidar de sua autenticidade.
O procedimento para determinação da idade, que inclui radiografias do pulso, dos dentes e da clavícula, só deve ser iniciado quando houver dúvidas reais e nunca automaticamente. Organizações de defesa da infância insistem que a presunção de pertencimento a minorias deve prevalecer. O jovem tem o direito de ser ouvido, de ter um intérprete e de ter assistência jurídica. Além disso, salientam que o Comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas já emitiu diversas resoluções contra Espanha por violações destes direitos em casos anteriores.
Coordenação entre administrações e distribuição territorial
A saturação de recursos em Ceuta tornou necessária a ativação do mecanismo de distribuição de menores entre as comunidades autônomas, previsto no Real Decreto-Lei 2/2025. O Ministério da Juventude e da Infância está trabalhando para garantir que o procedimento de acolhimento familiar, baseado na solidariedade e com caráter vinculativo, ocorra o mais rápido possível. para aquelas comunidades que estão abaixo da sua capacidade normal de acolhimento, fixada em 16.016 lugares para todo o território nacional, dos quais apenas 27 correspondem a Ceuta.
A Fundação Raíces exigiu que todas as administrações envolvidas coloquem a proteção das crianças acima do controle de fronteiras e que seja garantida uma avaliação individualizada de cada caso. A reunificação familiar só deve ocorrer quando não houver risco para a criança. e nunca por meio de uma simples entrega às autoridades marroquinas. Além disso, solicita-se que todos os menores identificados sejam registrados no Cadastro Central de Menores Estrangeiros Desacompanhados para garantir seu monitoramento e proteção.
A crise de Ceuta evidenciou, mais uma vez, a necessidade de políticas migratórias que respeitem os direitos das crianças, com procedimentos individualizados, proteção especializada e soluções duradouras que atendam ao melhor interesse de cada criança e adolescente. A coordenação entre os órgãos governamentais e o cumprimento do direito internacional são as únicas maneiras de garantir que nenhuma criança fique desprotegida em uma emergência humanitária.
